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!Don´t drag me down!
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11月1日 Receita para um dia melhor (em prosa).
Em primeiro lugar, tenha uma noite insone. Depois, more no centro da cidade em um apartamento
no primeiro andar de um prédio feio, no cruzamento de duas ruas movimentadas. Ao conseguir
dormir (insônia, lembra?), seja acordado por um ônibus que arranca após 45 segundos de sinal
vermelho, exatamente sob a sua janela. Tente dormir outra vez, dominado pelo cansaço. Minutos
depois acorde ao som estridente do seu telefone tocando incessantemente. Ignore a primeira
chamada - ninguém normal liga a essa hora - tente abstrair, vire para o lado e feche os olhos
lentamente, apenas para ter o trabalho de abri-los novamente para atender o telefone que toca
pela segunda vez. Semi sedado pelo sono que agora chega massacrando, ouça seu chefe fazer
severas reclamações. Escute tudo fingindo que está atento e, apenas para ser gentil, pergunte a
ele se é necessária sua presença no trabalho horas mais cedo. Ouça-o dizer "voe para cá".
Desligue o telefone com certa calma (é importante não perder a paciência nesses momentos de
quase fúria), tome um banho, pegue a primeira roupa que estiver largada pelo chão e vista-se.
Lembre-se, você vai ao trabalho fora do seu expediente normal e não ao Country Club. Na mochila
coloque já o material para as aulas da noite, seus tênis de escalada, magnésio (quem escala sabe
a importância do magnésio...), biscoitos passatempo recheados, as redações que você ainda tem
que corrigir, uma caneta vermelha e os dois livros que você nunca abandona. Sim, ler é
importante.
Uma vez que tudo esteja arrumado, pegue a chave e... rua! Agora um pequeno detalhe: onde diabos
você deixou a chave? Perca tempo procurando algo que deveria ter um lugar
fixo, mas que jamais é deixada no mesmo lugar. Depois de quase 20 minutos, encontre, abra a
porta, coloque a chave pelo lado de fora, tranque a porta (quem tem TDA/h entende perfeitamente
esse diálogo com as coisas e com as ações, um recurso para manter a concentração), tire a
chave da fechadura e corra; e sim, perca mais tempo ainda esperando um ônibus que você acabou
de perder. Quando o ônibus chegar (lotado), embarque e descubra que é sempre quando você
paga que o troco acaba. Aguente por 5 minutos o mal humor do ser humano contratado por uma
empresa particular que faz o transporte coletivo da sua cidade, e após isso pergunte sorrindo se
você já pode passar. Descubra que ainda não, mas que não há tempo mais para esperar.
Desembraque sem o troco mesmo, afinal que diferença podem fazer umas duas moedas?
Perca mais 5 minutos de vida tentando atravessar a via rápida. Chegue no Estúdio, aperte o
interfone, aguarde... ouça o som metálico que garante que sua passagem para o inferno está
liberada. Sem ouvir sequer um bom dia, ouça piadinhas do tipo "caiu da cama?", entre outras
bizarrices já quase clássicas. Entre na sua sala e lá encontre seu chefe bufando, fuçando no seu
computador, tentando encontrar soluções em uma ferramenta que ele completamente ignora.
Peça licença, sente, descubra qual é o problema e resolva a coisa toda em 3 cliques e um "enter".
Veja seu chefe ficar possuído por uma entidade maligna. Comece a adiantar os trabalhos da tarde,
depois saia para comer qualquer coisa no supermercado próximo (o passatempo recheado é para
o fim da tarde). Volte ao Estúdio e recomece a vida. Abra a mochila apenas para descobrir que
você esqueceu seus óculos, e saiba que lhe farão muita falta. Abra o i-Tunes, coloque seu set list
no "random", ponha os fones e aumente o volume.
Veja as horas que se arrastam, tenha um surto e mande uma mensagem melancólica citando um
excerto de "Brisa Marinha", de Stéphane Mallarmé. Receba uma resposta enigmática. Responda a
resposta enigmática. Receba uma pergunta. Responda a pergunta. Receba um convite. Aceite o convite.
Marque o lugar e a hora. Receba um quase "talvez". Espere a confirmação. Agora, pior do que antes,
veja o tempo se arrastar elevado ao quadrado. Controle a ansiedade. Não conte os minutos, uma hora
ou outra eles passam e sua hora de ir embora chega.
Na hora apropriada vá embora. Faça o mesmo trajeto, dessa vez na direção contrária.
Novamente controle a ansiedade. Não sorria ainda. Assista a aula de Literatura Brasileira IV, anote
algumas coisas, leia uns trechos do romance em questão, receba a confirmação, sorria, interfira na
aula, faça perguntas, responda a chamada e vá embora. Caminhe devagar, o lugar é proximo e
você está adiantado. Chegue cedo mas sem pressa. Escolha um lugar perto da janela. Peça café,
água e, enquanto espera, corrija alguns textos. Veja a emissora da confirmação chegar e não ver
você de imediato. Ache isso engraçado. Veja-a ver você, sorria, cumprimente-a (controle-se e não
faça nada de errado). Deixe que ela faça seu pedido, peça um novo café, dessa vez com creme.
Conversem sobre tudo, olhe-a, note os mesmos olhos que tanto chamam a atenção nas fotos.
Diga isso. Preste atenção a tudo que ela diz, afinal, você realmente se importa. Sorria. Veja-a
sorrir. Entenda-a, compreenda-a. Aproveite a companhia. Você não sabe se essa coisa fascinante
acontecerá novamente.
Triste, descubra que é hora de ir embora. Feliz, descubra que descobriu uma pessoa fantástica.
Esqueça de dar um abraço decente na hora da despedida e, no fim de tudo, acredite que um dia esse abraço acontecerá.
the end! |
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